Eduardo Ramos
O acervo do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, considerado a maior coleção corporativa de arte da América Latina, é composto de obras de artes visuais, literatura, audiovisual e tecnologia, que totalizam mais de 15 mil itens. E 60 deles podem ser conferidos de perto pelos santa-marienses até o fim de abril. O Museu de Arte de Santa Maria (Masm) inaugurou nessa semana, na sala de exposições Jeanine Viero, a mostra “Museum”, com obras que foram doadas pelo Itaú Cultural à instituição e agora são expostas à Cidade Cultura pela primeira vez.É a segunda vez que o Masm recebe doações de obras do banco que passam a fazer parte do acervo permanente do museu. Nessa segunda leva da parceria, que ocorreu no fim de 2022, o Masm recebeu fotografias, esculturas e obras em serigrafia, litografia, desenho e outras técnicas assinadas por grandes nomes do cenário artístico nacional.Marília Chartune, artista e diretora do Masm, conta que é uma honra receber essa doação de um instituto cultural tão importante. Ela entrou em contato com o banco Itaú e fez os trâmites que possibilitaram a aquisição.– São obras de artistas nacionais que estão em todos os lugares do Brasil. Inclusive, recentemente, ocorreu uma feira de arte em São Paulo e a maioria desses artistas estão representados lá. Então é uma oportunidade que Santa Maria tem de fruir de uma belíssima exposição de artistas, como Carlos Scliar e Carlos Vergara que são daqui da de Santa Maria, entre outros grandes nomes nacionais – conta.
PARCERIAS
A curadoria da exposição “Museum” é do artista Márcio Flores. Ele conta que o Masm tem uma política de aquisição de obras de arte desde 2009, quando começou o processo de revitalização do local.– Já é a segunda ação que fazemos com o Itaú e eu tenho certeza que terão outras, porque assim como grandes colecionadores, essas instituições possuem vários acervos. E eles sabem que o Masm é uma instituição séria, que tem um trabalho dedicado, então é bastante tranquila e proveitosa essa mediação – diz Márcio.Conforme o curador, o Masm está sempre dialogando com outras instituições, artistas e acervos particulares que querem fazer doação. Márcio reforça que também existe todo um processo para ver se é de interesse do museu receber novas obras, porque há a grande responsabilidade de fazer a preservação e salvaguarda do material na reserva técnica.– E o acervo é extremamente importante principalmente por ter obras de artistas de grande relevância nacional. É importante que a comunidade de Santa Maria possa visitar e conhecer as obras e um pouco do fazer desses artistas tão importantes – finaliza Márcio.As obras da exposição “Museum” também são uma representação da chamada arte moderna, designação dada para a produção artística que surgiu em meados do século 20. Foi o primeiro período artístico que abrangeria novas formas de se fazer arte, como a fotografia. No Brasil, o movimento se consolidou com a famosa Semana da Arte Moderna, que ocorreu em 1922, em São Paulo.
À esquerda, obra “Sem Título”, de Carlos Vergara, em que ele utilizou a técnica de litografia sobre papel. À direita, as flores, as folhas e cores de Scliar. A obra foi feita com a técnica serigrafia.
TALENTO DAQUI
Entre as obras expostas na mostra “Museum” há trabalhos de dois grandes santa-marienses, que levaram o nome da Cidade Cultura para o Brasil e para o mundo. Os Carlos: Scliar e Vergara. Nas décadas de 40 e 50, a arte abstrata predominava no Brasil e a gravura era um tipo de criação acessível. Um livro só com elas, lançado por Carlos Scliar na época, inclusive, tinha texto de apresentação assinado pelo escritor Jorge Amado.Um dos nomes mais importantes da arte contemporânea no país, Scliar não deixou de pintar nem enquanto era artilheiro da FEB, força especial criada na Segunda Guerra Mundial e extinta depois do conflito. Ao longo de sua carreira, Scliar, que faleceu em 2001, no Rio de Janeiro, foi descrito por artistas e amigos como uma figura generosa, que até mesmo comprava quadros de pintores iniciantes como forma de incentivo. Entre as obras que o artista gostava de produzir, estavam retratos, paisagens e natureza morta. Entre as técnicas, desenhos feitos com nanquim e telas com tintas coloridas. No centenário do artista, em 2020, o Masm promoveu a exposição virtual “Carlos Scliar, uma homenagem ao centenário – Releituras”.
Já Carlos Vergara, um dos artistas plásticos mais reconhecidos do Brasil, nasceu em Santa Maria, mas dois meses depois mudou-se para Porto Alegre e, em seguida, para o Rio de Janeiro. Em 2014, o Masm recebeu a exposição “Carlos Vergara Viajante: Experiências de São Miguel das Missões”, que estabelecia um diálogo entre a arte contemporânea do santa-mariense e as ruínas jesuítas. Na época, retornando a sua cidade natal, Vergara chegou a fazer um roteiro pelos principais pontos turísticos da cidade, como a Avenida Rio Branco, a Gare e a Catedral Metropolitana. Também visitou Restinga Sêca, terra de Iberê Camargo, artista que empresta seu nome à uma sala do Masm e levou o da nossa região para o mundo.
CARLOS VERGARA
Hoje com 81 anos, participou dos mais importantes movimentos da vanguarda artística brasileira nos anos 60 e 70, tais como a mostra Opinião 65, que se tornou um marco na história da arte nacional, ao evidenciar a postura dos jovens artistas diante da realidade social e política da época. Além de política, paisagens diferentes fizeram parte dos interesses do artista, que as elabora e transforma usando meios diversos, como fotos, desenhos, pinturas e monotipias (impressões). É um destacado desenhista, gravurista, pintor, ilustrador, cenógrafo, roteirista e designer gráfico. Participou constantemente de exposições no Brasil e em todos os centros artísticos mundiais, sempre registrando sucesso. Ativista social, engajou-se em vários movimentos, como o 1º Congresso da Juventude Democrática, na Tchecoslováquia, e em manifestações brasileiras, seja produzindo cartazes ou ilustrando livros. Em sua trajetória, Vergara realizou mais de 180 exposições individuais e coletivas de seu trabalho.
CARLOS SCLIAR
Gravurista por opção, apaixonou-se pela serigrafia, em cuja técnica desenvolveu várias séries. Com apenas 11 anos, Scliar começou a colaborar nos suplementos Infantis do Diário de Notícias e do Correio do Povo, de Porto Alegre, com poemas, desenhos e contos. Com 14, estudou desenho e pintura com o austríaco Gustav Epstein. Produziu três painéis sobre a cidade de Porto Alegre, para o Salão Nobre da prefeitura, e também para os governos de Porto Seguro e Salvador, na Bahia. Uma das importantes características de Carlos Scliar era a sua capacidade de inovar, buscando novos materiais que lhe servissem de base e técnicas das mais variadas, desde têmpera até o acrílico, passando pelas artes gráficas. Pintou quadros, mas também fez murais e até ilustrou vários bilhetes da Loteria Federal, premiados com sua arte. Dedicou-se também à pintura e à colagem, com o tema recorrente da natureza-morta, dialogando com Morandi, Picasso e Braque. Destaca-se por ser um dos pioneiros da arte moderna no Brasil.